"Sou mestre para falar em solidão. Pode aparentar bobagem, para alguém de tão pouca idade, mais jovem para mim é quem tem sete anos de vida ou menos. Ainda assim, ninguém encontrará outra pessoa no mundo para falar de solidão tão bem quanto eu. Não sinto remorso em expor minha história, talvez alguém aí, sinta-se como eu (...) Eu nunca vi meu pai chorar. Nem nunca tive a coragem de beijar seu rosto. Nunca fomos próximos, nossas conversas construíram limites, e nós os respeitavamos fielmente. Não sei há quanto tempo nossa relação é assim, mais sei que não ouso tirar o pé desta linha invisível por medo, por não querer mudar. Não sei se ele me ama, porque às vezes ele torna-se um monstro, que caça a paz para destruí-la com todas as armas que tiver e puder. Talvez meu pai me ame como eu o amo (...) Não tive avôs, meu avô paterno morreu de câncer, porque encontrou no cigarro uma forma de ser menos ignorante e mais pensativo. Meu avô materno foi embora de casa, depois de tentar várias vezes assassinar minha avó e de expulsar os filhos de casa sobre a ameaça de uma arma, depois de altas doses de álcool. Nunca os conheci. E tenho inveja de quem tem um avô, por isso meus olhos enchem-se de lágrimas quando vejo um vovô impulsionando um balanço, num parquinho próximo de casa, enquanto a criança agarra-se as correntes, soltando gritinhos e sorrisos de felicidade. Talvez tenha sido melhor para mim sem eles. Talvez eu mereça. (...) Tenho uma avó que já aproxima-se da casa dos 100, ela não sai mais de casa, e só levanta-se para ir ao banheiro. Ela gosta mais do meu irmão, é seu neto preferido, e eu não sinto raiva, inveja ou repulsa por isso, eu também queria ter uma avó preferida, um avô preferido, um tio preferido. Minha outra avó, procura esconder por debaixo de uma máscara as dores que a vida lhe causou. Por vezes atira a ignorância, como a bala de sua arma mais potente, e acaba magoando-me. Mais eu não a culpo por nada. Eu não sou sua melhor neta, nem nunca fui, mais talvez tenha sido bem melhor assim, talvez eu não mereça o título de melhor, em nada. Eu não falo com o meu irmão. Desde o dia em que ele entrou pela porta do apartamento e foi violento comigo, como se estivesse no direito de fazer e desfazer. Aquilo doeu, dentro de mim, a dor que eu senti nos braços não se comparava a dor que sugava-me o ar por dentro. Eu não sinto raiva, apenas o amo em silêncio, por medo de que, se ele souber o quanto o amo e sinto sua falta, tenha outro acesso violento e acabe com todo o sentimento que eu tanto lutei para colar, para reconstruir (...) Minha mãe tem problemas, não teve infância, nem adolescência, já pulou para a fase adulta. Ela sofre, por vezes chora, por outras grita, implora por ajuda, e eu estou sempre lá, pedindo calma, abraçando, enxugando lágrimas, segurando o meu próprio choro para não demonstrar fraqueza e esperando tudo acabar. Não faço isso por obrigação de filha, faço por amor. Minha mãe deixou para viver agora o que não viveu antes e em alguns momentos esquece quem sou, usa palavras que ferem, que me fazem sangrar, mais nada disso é capaz de fazer diminuir o meu amor. Acho que eu tenho o dom de perdoar, ou talvez só a capacidade de pensar um pouco mais (...) Não tenho primos da minha idade, meus tios e tias são tão estranhos para mim quanto um vendedor de loja de calçados (...) Os amigos que tenho não moram na mesma cidade que eu, e meu único melhor amigo que mora aqui, a alguns bairros de distância de mim, por algum motivo desconhecido, não pode vir me ver (...) Talvez isso não seja ser solitária, comparado ao que algumas pessoas vivem, mais gosto de escrever sobre a biografia de algo que tornou-se solidão. Eu a acho tão fascinante. Tão poderosa. Capaz de magoar, matar, enlouquecer ... Talvez seja coisa de garota mimada, essa minha solidão, mais eu me sinto só, muito só."
Fot
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